sábado, 5 de novembro de 2016

solidão

A solidão é minha parceira de longa data. Gosto de ter amigos, pessoas com quem compartilhar os dias, os risos, as tristezas, mas é nos momentos em que estou só comigo mesma que me sinto verdadeiramente completa, inteiramente eu.

Me lembro de quando adolescente, minha mãe e irmã com frequência viajavam para a serra e eu ficava sozinha em casa, adorava aqueles finais de semana, as maratonas dos seriados favoritos no dvd (basicamente Friends, Gilmore Girls e Arquivo X), as lasanhas de microondas (quatro queijos, por favor) e os brigadeiros de panela só para mim. Tomava banho quando e se quisesse), dormia quando e se quisesse (quase sempre no sofá mesmo, para depois voltar ao episódio em que tinha dormido mais facilmente).

Eu dou risada sozinha, eu choro sozinha, eu estou comigo, sozinha.

Depois daqueles tempos, só fui experimentar a solidão novamente quando cresci muito, hoje tenho poucas oportunidades para isso, e creio que, quando eu for mãe, nunca mais terei eu mesma para mim. Isso me deixa triste, já saudosa de algo que ainda não foi, mas que é tão certo que se vá, que sofro por antecipação.

Hoje poderia estar apreciando a solidão, o dia cinzento, um friozinho fora de época, sozinha em casa. Mas tenho trabalho da pós-graduação para fazer. Talvez não seja tão antecipado assim o meu pesar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

a chuva

Hoje o dia amanheceu chovendo. Gosto de dias chuvosos, sempre gostei. Há um não sei o quê belo nas cores de um dia chuvoso, uma sonoridade no cair da chuva, uma melancolia com que o dia, o mundo e a minha vida se revestem, que me fazem amar a chuva.

A chuva não me deixa triste, mas igualmente não sou feliz com ela. 

A chuva é como se minha vida se exteriorizasse, como se o que tenho dentro de mim estivesse, caindo em plenitude, como se as pessoas, finalmente, estivessem me vendo como sou: cinzenta, barulhenta, melancólica.

Gostaria que chovesse todos os dias.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

ignorâncias compartilhadas

Fui chamada ignorante. De fato o sou, há tanto que desconheço, é um mundo tão grande esse em que vivemos.

Não sei que língua se fala na Papua Nova Guiné, não sei nem se esse país ainda tem esse nome. Não sei qual a religião predominante no Gabão (islamismo, talvez?). Não sei quase nada sobre música, sobre o movimento expressionista, sobre qualquer coisa em matemática, química, física ou biologia.

É tanto o que ignoro que talvez não deva tomar o adjetivo por uma ofensa, em se tratando de uma realidade fática.

Mas o quão ignorante será quem assim me chamou? Não é também ignorar as diferenças entre as pessoas uma ausência de conhecimento? E o quanto alguém que diz isso a outro ignora sobre relacionamentos, sentimentos, trato social, sobre a vida? Saberá ela que as palavras podem ferir, podem destruir?

Talvez quem assim fala comigo ignore que compartilha comigo a ignorância.